sábado, 6 de junho de 2015

Preservando a unidade

Uma das características mais marcantes do ensinamento de Cristo era a meta da unidade entre seus discípulos. Antes da sua morte, num momento em que estava emocionalmente triste por deixá-los, fez um ardente pedido. Uma pessoa, quando está se despedindo da vida, revela os segredos do seu coração.

Nesse momento, nada mais há para ocultar, tudo o que está represado clandestinamente nos pensamentos vem à tona. O que estava represado dentro de Cristo e veio à tona logo antes de ele morrer? Vieram pelo menos quatro desejos extremamente sofisticados:
a) A criação de um relacionamento interpessoal aberto e íntimo capaz de produzir amigos genuínos e de superar as raízes da solidão;
b) A preservação da unidade entre os discípulos;
c) A criação de uma esfera sublime de amor;
d) A produção de um relacionamento sem competição predatória e individualismo.

Como já abordei o primeiro tópico, comentarei a seguir os demais. Cristo não queria que seus discípulos estivessem sempre juntos no mesmo espaço físico, mas no mesmo sentimento, na mesma disposição intelectual, na mesma meta. Ambicionava uma unidade que todas as ideologias políticas sonharam e jamais conseguiram. Uma unidade que toda empresa, equipe esportiva, universidade e sociedade almejam, mas nunca conseguiram. Almejava que fossem unidos na essência intrínseca do ser deles.

A unidade que Cristo proclamava eloqüentemente não anulava a identidade, a personalidade. As pessoas apenas sofreriam um processo de transformação interior que subsidiaria uma unidade tão elevada que estancaria o individualismo e sobreviveria a todas as suas diferenças. Juntas, unidas, elas desenvolveriam as funções nobres da inteligência. Cada pessoa continuaria sendo um ser complexo, com
características particulares, mas na essência intrínseca elas seriam uma. Nesta unidade cooperariam mutuamente, serviriam umas às outras, se tornariam sábias e levariam a cabo o cumprimento do propósito do seu mestre.

Para preservar a unidade proposta por Cristo, as disputas e as discriminações deveriam ser abortadas. Além disso, para preservá-la seria necessário aprender a sofrer perdas em prol dela. Nenhuma unidade sobrevive sem que as pessoas que a procuram estejam dispostas a sofrer determinadas perdas para sustentá-la. Até porque não é possível haver relações humanas sem haver também decepções.

Portanto, para que a unidade tivesse raízes, era necessário trabalhar as perdas e as frustrações e apreciar as metas coletivas acima das individuais Excluir, discriminar, dividir, romper são habilidades intelectuais fáceis de se aprender. Uma criança de cinco anos de idade já tem todas essas habilidades em sua personalidade. Porém incluir, cooperar, considerar as necessidades do outro e preservar a unidade exige maturidade da inteligência, exige compreender que o mundo não deve girar em torno de si mesmo, exige desenvolver um paladar emocional refinado, no qual se tenha prazer em se doar para o outro.

O individualismo é um fenômeno intelectual espontâneo e não exige esforço para alcançá-lo. Além disso, ele não gera um prazer tão rico como o prazer coletivo, quando se está entre amigos, quando a unidade é cristalizada. Quem preserva a unidade se torna especial por dentro e comum por fora. Quem ama o individualismo se torna especial por fora, mas superficial por dentro.

Na unidade proposta por Cristo os discípulos conquistam uma esfera afetiva tão sofisticada que recebem o nome de irmãos. É muito estranho aplicar essa palavra “irmãos” a pessoas que não participam dos mesmos laços genéticos ou da mesma história familiar desde a mais tenra infância. Pois bem, o clima produzido entre os discípulos de Cristo era irrigado com um amor tão elevado e difícil de ser explicado que os tornavam membros de uma família. Uma família que está além dos limites dos laços genéticos, que é não um mero grupo social reunido, mas que possui a mesma história interior, na qual cada membro torce pelo outro e contribui para promover seu crescimento interior.



Extraído do Livro: 
"Análise da inteligência de Cristo: o Mestre dos Mestres".  Augusto Jorge Cury - São Paulo: Academia de Inteligência, 1999, pag.78.

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